terça-feira, 16 de outubro de 2007

Manual




Para enamorar-se de um poeta
Há que se compreender a lua e as marés
A inconstância das brisas astrais
As brumas mortais
E os ventos intempestivos de uma consciência inconseqüente.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se entender que seu coração é tempo
E que ausência de sentimento no papel
Venta.

Para enamorar-se de um poeta
Há que extrapolar, riscar, correr riscos
Porque ele nasceu do submundo dos sentimentos
Que nem sempre
Cabem nas estreitas fôrmas das palavras.

Para enamorar-se de um poeta
Há que aceitar que ele é pássaro
Que ele não prende, nem gosta de gaiola
Por mais que seu coração seja grade

Para enamorar-se de um poeta
Há que resignar-se a alguns defeitos
Mudar alguns conceitos, preceitos
Mas nunca deixar de ser você
Para que seja sempre musa

Para enamorar-se de um poeta
Há que se observar
Que uma palavra têm vários ângulos
E na raiz de seus extremos
Nem sempre sabe usar as palavras certas
Quando seu coração (letra) sai da caligrafia

Para enamorar-se de um poeta
Há que se enxergar o mundo em branco e preto
E saber que as cores mudam
De acordo com os momentos
(todas elas).

Para enamorar-se de um poeta
Há que respeitar que uma palavra
Às vezes precisa de espaço para estar

Sozinha.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se abandonar o maniqueísmo
Libertar o espírito do magnetismo dos princípios
Antes que caia no abismo infinito dos extremos
- submundo dos sentimentos robóticos.

Para enamorar-se de um poeta
Há que reza
Que nem tudo que é santo é segredo
E que profanar
É negar o desejo sagrado
Da vontade de pecar
No peito
Na mente
Na cama de papel
Motel de um bar.

Para enamorar-se de um poeta
Há que honrar
Que palavra não tem sexo
Que nem todo sentimento é fundo de poço
E que existem controvérsias.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se tolerar a gramática, porque:
Quando circunspeto é reticências
Quando insatisfeito, exclamação
Quando feliz, vírgula
Quando chove, circunflexo
Enquanto vivo, interrogação.
Saber estar no limite da razão
No fim da emoção
Além da imaginação.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se compelir com a dor
Abrir o coração para uma cicatriz feita a caneta
- e caneta não apaga com borracha -
e se preparar para a saudade.

Para enamorar-se de um poeta
Há que estar sem máscaras
E saber lidar com elas
Pois até quando mente diz a verdade
Pois nem todo mel é puro
E nem todo fel é culpa.

Para enamorar-se de um poeta
Há que saber atuar
Porque tem um espírito
Que não cabe no corpo...
...alguma coisa de asas
...água...
é fogo.

Para enamorar-se de um poeta
Há que ser materialista
Enamorar-se dos sentidos
E sinestesicamente sentir
Que nem todo toque é físico.

Para enamorar-se de um poeta
Há apenas que ser você
No limite do seus instintos
Para além de um manual.

Afinal,
Não é o imprevisível
Que torna a vida delicadamente interessante?!

* para uma estrela

George Wandega
3:33 pm 12/07/2007 (Em casa - Imbassaí)

2 comentários:

Anônimo disse...

Este foi um dos poemas mais lindos que já tive o prazerde ler... também componho, e geralmente não gosto de coisas repetitivas mas esse poema tem uma doçura tão suave que não enjoa o coração! PArabens

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.