terça-feira, 16 de outubro de 2007

Eu (em cores)

Luz: Agora me bate uma luz de como estou inserido no mundo... primeiro me vem a sensação de coisas claramente boas e diferentes, um cara sorridente, arrumado, responsável, pai de família. Vejo que é fácil ser assim. Abandonar barreiras que só deixo que me pareçam intransponíveis quando quero ser impedido. Mas quando desejo a rompo.
O fato é que não consigo me ver v e r d a d e i r a m e n t e – dito assim, cadenciadamente pra enfatizar – feliz assim, sem buscar nada de novo...
Quiçá, esse sentimento que me levou, ou pelo menos moveu a minha curiosidade em terminar o curso de jornalismo, saber o que eles buscavam no quem, como, onde, quando, porque, pra quê... no novo. Meu coração fica feliz com cada novidade.
Eis que entra a dúvida se sou algum simpatizante espiritualista ou um materialista confesso, porque sou amante dos sentidos, e volúpia nas mãos deles.
Cada textura que toco, os dedos d’alma registra como um artesão divino em busca de matéria para existir.
Cada cheiro tem um código para decifrar num labirinto de veludo por onde percorro com a avidez e a pureza de uma criança que descobre o mundo.
Degluto cada gosto; tudo que naufraga à minha boca e sucumbe aos ataques atrozes de uma tribo de dentes que honra com o alimento sagrado a língua: a Deusa do paladar; um oráculo que através do sabor prevê se algo ou alguém é bom ou ruim.
Saboreio cada som como se pudesse estar no coração de quem canta, sinto a melodia no compasso de cada nota, e sou personagem principal, o coadjuvante, a história inteira, cada letra, e sei em que parte do coração ela toca – quando sangra é que é chato de estancar.
EXPLODO em cores. E este “irmão mais velho” dos sentidos – e não melhor por isso – é talvez o mais sedutor. É o meu sentido mais festeiro porque encontra beleza nos mínimos detalhes, e sempre se embasbaca com eles, pois desde que aprendeu a guardar uma estrela dentro dos olhos, está sempre brilhando, forçando no escuro, enxergando além. E na qualidade de janela, abre portas para outros sentidos.
O sexto é meu coração, que parece cadela num cio de atrações por todos os sentidos. Foi quem me ensinou a gostar de viver e a me sentir vivo, por mais que já tenha devotado a morte.
O sétimo sentido é o pensamento, este é o meu lado mais sério, é ele quem tem a responsabilidade de reunir todos na ante-sala craniana e dizer para o papel, somente com unanimidade de votos, tudo o que sinto.
O oitavo, o último dos meus sentidos, e por alguma curiosidade 8 é um número que me acompanha, é uma interrogação. É um respeito por algo que não sei se é real ou paradigma, pois se somos simples frutos naturais da evolução e de acasos, é natural que milagres sejam acasos casuais, e acaso simplesmente não tem necessidade de ser explicado, acaso apenas acontece, humano é que tem mania de querer achar explicação para tudo. No entanto ninguém consegue explicar os próprios sentimentos. Aliás, retifico-me, muitos, mas não sei se pelo que foi de fato passado ou pela facilidade do próximo em compreender. E milagres, ou esses acasos, – diga-se de passagem – são quase sempre tudo que tem para justificar a existência de algo maior que a própria natureza, quando talvez seja só uma necessidade em ter uma interrogação no coração...
Aí a luz se volta, ganha cheiro de mato, e luz de 8 de uma linda manhã nublada, onde tudo se reflete em tudo, e fundo de panela ariada ganha brilho de cristal; um sentimento de novidade ganha o peito e vejo em essa claridade de dia tudo simplesmente se metamorfoseando num cara sorridente, largado, “cinza”... paizão. Vejo que é bom poder realizar coisas que sempre sonhei e que tinham barreiras que deixava me pareciam intransponíveis, até que entendi, que nem toda corrente é caverna, que nuvens gris, deixam o verde mais bonito, que verde é vida e sei que se as condições não forem boas, acima do céu nublado há sempre um espaço azul para quem voa com asas de papel, por mais que eu não caiba em nenhum espaço – sou pequeno demais.
E vejo rumos para o nada, mas me entrego ao infinito, porque sou 8, não tenho começo nem fim, e tenho extremos, lado maior, lado menor, por vezes iguais, é só uma questão de matemática, de crença, nem sei se acredito nesse negócio de número. O fato é que pelo ato de eu não ser nada, é que sou infinito.

George Wandega
10:49 am 19/07/2007 (em casa - Imbassaí)
* ao som de O Rappa

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