quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Os pássaros também amam



Luz: Meu amor é tão puro – sem querer ser petulante nem usar de falsa modéstia – que me faz ser sempre bruto com os que mais me amam; quem ama cuida. E esta, quiçá, é a única forma de protegê-los de mim. Por isso, pássaro, lhes sentencio à distância, também porque necessito ver de longe, como quem aprecia uma obra de arte para um melhor alcance de sua compreensão mais de perto e forma de libertar.

Quando algo envolve cobranças, passa para o campo dos relacionamentos - materno, fraterno, conjugal; inefável. Eis o mais absurdo dos erros: amor não é um sentimento, é um estado de espírito que não se explica, se chega ao. Por isso toda e qualquer palavra se faz insuficiente quando se fala nele, e acaba-se quase sempre eivado em pieguice.

Há de certo que nem toda cobrança é grade, mas nem todo carinho é compaixão. Então, só o faço quando realmente sinto a necessidade de fazê-lo. O carinho é o tato do amor, por isso quando feito da forma errada, machuca. Mas é também a mais volúvel das expressões de afeto, o michê dos sentidos, por isso nem sempre significa sentimento – quem dirá um estado de nirvana.

Carinho, todavia, vai além dos limites do físico, mas relacionamos quase sempre o amor ao tato, e fazemos amor como ato de carinho.

Amar enquanto doutrina, transcende a ética porque não cabe nos parâmetros da moral, ultrapassa o que é humano porque é essência divinha: é uma forma de catarse. É por isso condeno os que amo à liberdade...

George Wandega
3:56 am 18/10/2007 (casa de meu pai)
* ao som do silêncio


Melancolia




Quando ficou escuro

ouvi o sol raiar

e o som nasceu quadrado...




George Wandega

8:36 pm 17/10/2007 (Facitec - DF)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Raiva




Luz: A raiva não é um sentimento, é uma característica do ser humano que habita as qualidades voláteis, e pelo fato de ser tão sutil, se consome rápido.
É uma calma sem dente, que pela fome que sente, se alia a alguns sentimentos para se fazer instrumento e caçar a presa certa.
Mas a existência é muito curta para se sentir raiva. Viver a raiva, é senti-la em sua vertente mais sábia, é discernir a sua direção, não para algo que não seja necessário dentes, pois isso é ludibriar o espírito. É apenas saber que não é hora de se alimentar com desejos lascivos para não dar cor às asas dos sentimentos mais ardentes, por que tudo que é chama um dia foi eterno e virou cinza.

George Wandega
12:42 pm 12/10/2007 (No Hospital Anchieta - DF)
* para o porteiro

(sem título)




Quando eu rouco
Você doce
Quando eu lobo
Você monte
Quando eu uivo
Você curte
Quando eu erro
Você surge
E quando o efeito surte
Fazemos parte da mesma música.

George Wandega
À noite 05/10/2007 (UFBA)
* ao som de Lobão

Inquisição



Qual é a pior fogueira,
Amar
Ou ser amado?
Não há muita escolha
Quando se está amarrado
À certeza
De ao amor estar condenado...

George Wandega
À noite 05/10/2007 (UFBA)

* ao som de Marisa Monte

Semente alada




É que cabeça de passarinho é assim
Pensamento tem asa
E mundo não acaba
Se tem lugar pra voar

Coração não tem raiz
E só deixa raízes
Porque as sementes que carrega
Estão prestes a frutificar...

George Wandega
9: 12 am 06/10/2007 (em casa - SSA)

Invisível transformação

Vê a hora?
Só dormem
Quando você acorda
Tem um “Q” de pensamento tolo
E uma qualidade de imaginação simplória
É invisível agora
Ninguém sabe
Onde esse lugar mora
Só se sabe
Que à luz da aurora
Às margens dos olhos fechados
Tudo se transforma...

George Wandega
8:02 am 05/10/2007 (em casa – SSA)
* ao som de Gabriel o Pensador

Natureza X Deus

Luz: Sempre quando desenho me pergunto como a natureza fez para se desenvolver, ficar com detalhes tão pequenos e peculiares para ser tão bela. E nessa hora apenas me remeto a deus. Creio piamente – não cegamente – na natureza e no seu desenvolvimento solo, mas é como se necessitasse de um referencial além-humano e com mãos.
Não é preciso ser de credo nenhum para ter ouvido a afirmação “deus criou o homem à sua imagem e semelhança”, ou foi egocêntrico em nos piorar um pouquinho e se tornou deus, ou é digno da benevolência que sempre nos concede, pois é tão errante quanto nós, e isso então explica o que insistimos em blasfemar como catastróficas injustiças, é que errar é divino.
Mas como precisamos de bons exemplos como referencial do que devemos ser, devotamos nele a imagem da perfeição. Então passamos uma vida de culpa, concertando erros e buscando ser bons para nos acontecer o bem, e não somente pela vontade de ser de fazê-lo. E já que maturidade é se impor frustrações a curto prazo para satisfações a longo prazo, esperamos a recompensa: um olimpo onde podemos finalmente exercer somente as nossas qualidades, porque temos lá a consciência que não conseguimos desenvolver aqui.
A natureza não precisa ser perfeita, por isso, até quando erra, é bela. Nela não se é bom, se vive bem porque na ausência de qualquer esperança existe asa. E se o dia nublar quando os dias não mais existirem, me tornarei terra para o útero da mãe do verde.
Sentindo assim, sou cada bicho que sai da ponta de qualquer coisa que risque, devoto de minha natureza humana, pois não busco mais saber se deus criou a natureza, ou a natureza criou deus...

George Wandega
9:46 am 04/10/2007 (em casa - SSA)
* ao som de The Cranberries

Transparente

O que me faz letra
Ultrapassa a palavra
Porque silêncio
Também é sentimento
O que me faz prole
Vai além do nome
Porque o laço que nos une
Corre nas veias da existência

O que me faz compreensão
Transcende o significado
Já que nem tudo que é explicado
É tão simples de entender

George Wandega
12:24 pm 03/10/2007 (em casa)
* Para meu pai

2º Saudade

Eu gostava quando doía
Quando o peito apertava
E fazia hematomas no estado de espírito.

Hoje tenho uma dor cicatrizada
Que entorpece o coração
E anestesia meu humor

George Wandega

1:28 pm 28/09/2007 (no ônibus – Real Expresso)

Âncora

Quando um pensamento traz espinhos
É melhor admirá-los.
Nem sempre o alívio
Que nos embriaga a mente
É cura para todos os males.
A perfeição
Sempre cobra suas dores.
Espinhos são âncoras
A outra parte é asa
E quantos naufrágios
Se tem dentro do corpo?
No fundo
Tudo é vida
E lembrar é um dom
Tão doce quanto o sal
Cujo prato só sai bom
Se dosado na quantidade certa.

George Wandega

10:26 am 22/09/2007 (casa de meu tio - Lençóis)

Quando Virei 1

Luz: Foi deixando de procurar entender tudo que simplesmente não necessita de explicação, que comecei a viver, e ao invés de compreender: sentir.
Aliás, a compreensão sensorial tem uma qualidade existencial que compele o espírito e o todo, que coesos, por sua vez, não mais precisam ser separados pelos abismos que são as explicações, pois, por melhores e maiores que elas sejam as formas de qualquer palavra, em nenhuma delas cabe a cor quando o idioma é o sentimento.
Mudam os continentes, os peitos, os idiomas, e nem todas as línguas tam a palavra saudade, mas todo mundo sabe o que o sentimento significa.
O sentimento é o dialeto pelo qual o espírito se comunica, e por vezes cala – não é que o silêncio seja calado, é que às vezes ele seleciona o que fala.
Ouvir o silêncio que vem do espírito é um estado alterado de consciência quase meditativo, onde consciente ou não, se permite ter linhas em branco no peito para se sentir mais intensamente.

George Wandega
12:40 17/09/2007 (Casa de amigos - Lençóis)
* ao som de Maria Bethânia

(Um título que se lê no fim)

Desejo i n t e n s i d a d e
Existir é apenas um mérito
Então me sinto
Audaz entre os intrépidos
Boêmio entre os corretos
Humano entre os sexos
Presente entre os épicos
Pois quando finalmente entenderem
Meus insípidos cadernos
Interpretarão
Um hiato entre os pretéritos
E verão que fui apenas
O mais puro dos céticos
O mais simples dos herméticos
Pagando meus pecados
No mais belo dos infernos.
(vida)

George Wandega

pela tarde 18/09/2007 (garupa da moto - voltando do Roncador - Lençóis)

Vôo solo

Por entre os dedos
Passam vacilantes
Os grãos de vento
E sob a planta das penas
Raízes aladas
Descalças
Ávidas por novas texturas
É que passarinho não veste pé
Quando quer sentir
A liberdade de estar voando

George Wandega

Pela tarde 18/09/2007 (garupa da moto – voltando do Roncador - Lençóis)

Sobre o Ego do Poeta

Luz: Um bom poema acontece somente coma junção de dois elementos: O senso crítico da inspiração, e a vontade do poeta de escrever. Pela cabeça de um poeta, passam várias inspirações durante os dias, porque tudo o que os seus sentidos puderem captar, é poesia. Em contraponto, todo poeta tem suas fases, mas os ensejos dessa lua nem sempre interferem nas estações de todas as inspirações diárias, porque a descarga de um sentimento no papel sacia sua vontade: é uma satisfação espiritual necessária a um poeta, é um instante orgástico fugaz para um mínimo de bem estar existencial – sobretudo consigo mesmo.
O recesso de criação se dá quando as motivações diárias não passam pelo crivo do senso critico da inspiração, e o poeta nem sente demais, nem deixa de sentir, mas pra ele a vontade simplesmente não importa.
As inspirações o atormentam, porque o mundo é sentimento, e ele é portador do mal das fôrmas: é quando a vida perde a graça se ele não consegue comprimir o máximo do que sente nas formas das palavras que escolhe para que tenha o mínimo do sentimento que deseja passar no que escreveu, para que seja digna de pelo menos ser guardada, e não relegada ao esquecimento – é a sua forma de participar do mundo, caso contrario não é ninguém. Quando isso acontece, o poeta se torna uma frustração ambulante, que dança claudicante em rotineiras abstinências.
“Andando sempre iguais, prum lado, pro outro, pra frente e pra trás”, assim, imaturo, tonto como em ciranda de criança, anda em círculos. Sabe não ser comum, pois a necessidade de ser devorado o faz menor mas é privilégio de poucos; nunca anda simplesmente reto, precisa do novo.
Até que algo sai de um recinto sacrossanto de si, que de tão imaculado é idôneo e não tem religião, faz o poeta se sentir com a vitalidade da inocência, e com a leveza do cansaço pede uma pausa na brincadeira de existir e para se sentir vivo, se põe a escrever.
É necessário que se saiba e ideal que se sinta esta compreensão, e somente assim um poema transcende os olhos: toca.
O único sintoma de compreensão é quando se sente cores que preenchem e fazem esboçar sorrisos incompreensíveis, que se dá com a boca da alma e que revela uma delicada forma de gratidão.
Eis o único motivo que leva um poeta a escrever: toda vontade é egocêntrica.

George Wandega

9:42 am 10/09/2007 (no ônibus – Linha Verde)

A idade do sexo

Luz: Mulher amadurece mais rápido; é fato que para os sexos a idade é sentida de forma diferente. Fácil culpar a cultura como justificativa, como mea culpa, e vendo-a como fator alienante à percepção dos sexos no âmbito da idade, deixa-se de enxergar os fatores biológicos que pelo simples fato de serem naturais, não se encontra explicações na quantidade de neurônios ou no uso deles.
Somente se nota que em determinada fase da vida, enquanto meninos brincam, meninas pensam; enquanto meninos penam, meninas fazem, por isso cabe aos meninos que aprendem a pensar mais cedo deixar de fantasiar.
Mas a medida que o tempo vai se tornando fugaz, as mulheres, naturalmente acostumadas a amadurecer – muitas vezes – perdem a boneca solitária que guardavam dentro de si; a donzela que fatidicamente morreu nos braços da primeira vez, nem de longe consegue fazer escutar os réquiens que cantarola numa lembrança muda de um momento que foi bom e ruim – mas sempre poderia ser magicamente diferente.
Para este momento o homem não recebe preparação, já nasce sabendo, é um instinto natural e por isso ele é mais cobrado. O sexo entra na vida do homem muito cedo. Nas ruas aprende com os mais velhos tudo que precisa saber, e com os da mesma idade contam histórias fantasiosas de quantas vezes e como aconteceu – os colegas só não precisam saber que só aconteceu na cabeça dele.
Assim o tempo passa e o homem continua na companhia de amigos, e guarda sempre algo de garotão dentro de si, uma nesga de Terra-do-Nunca oculta num lugar tão traquino espírito que só Erê pra encontrar. Ai, homem que é homem desiste de procurar, porque criança não tem preocupações. Quem sabe, o que torna um homem amargo é quando ele desvenda esse segredo vital e a vida passa a não ter mais aquele mistério gostoso.
Homem aliás, sempre se preocupa menos. Por isso é muito mais fácil vem homem barrigudo que mulher mal cuidada. Eis a resposta de uma das interrogações que mais atormentem as mulheres: a atração que homem sente por garotas mais novas – mas sem pedofilia. Não há necessariamente nada de concupiscente, é apenas a busca por alguém com a mesma idade de espírito.
E isso responde talvez uma das maiores exclamações dos homens, a eterna busca que a mulher tem pelo elixir da juventude – que o homem bebeu, caiu bêbado, e por gerações vive de ressaca na esquina da infância...

George Wandega
9:35 am 13/08/2007 (no ônibus)

* observando o mundo ao som de “Eduardo e Mônica” (Legião Urbana)

Ensaio sobre a psicologia

Luz: A compreensão da mente humana, ou, acordar, no sentido mais “matrix” da palavra, é despertar para o mundo, é mais do que saber como ela – a mente – é feita, mas porque ela foi feita.
Um psicólogo trata da mente de alguém não apenas enxergando o problema além das nuanças físicas que levaram às conseqüências, pois está para além da alma dos sentimentos que o move, está no porque o problema existe e pra que alguém precisa desse problema para si.
Somos, quem sabe, essencialmente tranqüilos, mas há uma natureza sádica em nós, algo de sarcástico em deixar que as situações torturem. Se livrar do problema não é se curar, curar a mente, porque toda ferida profunda deixa cicatrizes – e psicólogos não tratam de feridas triviais – é esquecer o problema. É um pedaço de passado que perdeu a cor e os traços mais fortes, e sobrevive apenas como matizes esmaecidos na areia de um deserto, onde sempre bate uma brisa e um sentimento vazio de nada.
Porém, um psicólogo só pode curar mentes quando esta acordado e é capaz de costurar os próprios pensamentos. Talvez por este motivo tantos problemas existenciais existem, a quantidade de gente que sai da faculdade achando que Freud explica tudo, é formada para reproduzir e não para pensar. Pegam caminhos já percorridos e tomando como seus, e não os tomando como base mas percorrendo os próprios...
Um psicólogo nos braços de Morpheu não cura, não é médico da consciência, é no máximo um apaziguador de ilusões.

George Wandega
9:20 am 31/07/2007 (em casa - SSA)

A cor do laço

Luz: Aquilo que os filhos quando cedo não entendem, e quando tarde procuram, é um sentimento vermelho e rosa que ao mesmo tempo em que se misturam, permanecem ímpares na matemática de um sentimento abobalhado de quando vem o filho correndo, e se reconhece as batidas coronárias nas pontas dos pés degustando a melodia no som de cada passo, de cada tom da risada gostosa que rasga com a solitude de um azul profundo; o tom de um cuidado carinhoso para que não caia e o desejo do melhor. Uma vontade que assalta de chofre a todos os órgãos do ser, de beijar, abraçar e dizer que ama, já meio que com uma subjetiva e pretensiosa cobrança de ter o carinho retribuído, mas com a compreensão resignada de quem já teve a mesma idade das marés.
O filho não entende, às vezes até foge, e os pais ficam com aquele olhar de navio à deriva vendo o cais se afastando. Algo que traz uma vontade de pureza, simplória e bucólica, em tons pastel, que só consigo definir como uma “solidão de ser criança”.
Quando à tarde da vida nos tornamos pais, entendemos finalmente qual é a cor do laço em que nossos pais disseram que sempre estivemos amarrados, aí tentamos, como nossos pais, amarrar as crianças que enxergam um mundo apenas cor de rosa...

George Wandega

2:37 pm 25/07/2007 (em casa - Imbassaí)

Mundos mudos

Quando te vejo chorar
A raiva passa...
...e quero lhe por no colo
desejo nos olhos de tu’alma
passar um lenço,
quando escorre num mar mudo.

Tanto sentimento materializado
Em forma de água
Que sorve
Com sabor de vacina
Contra os sentimentos
Quais te achas violada.

E me faço violão
Para a melodia inaudível do teu pranto,
Me recolho no canto
Começo a pensar
E musico outro sentimento
De machucar ouvidos roucos


George Wandega

12:14 pm 20/07/2007 (em casa - SSA)

Maturidade Poética

Quando percebo o presente
Sinto algo que passou
Algo que foi corrente
Que não quero chamar de tempo
Para não sentir com as lembranças
Letras ainda disformes
No maternal do pensamento.

Sinto o quanto sou verde
E vejo o quanto tenho de treinar
A caligrafia de um sentimento
Para amadurecer uma poesia...

George Wandega
12:01 pm 20/07/2007 (em casa - SSA)

Eu (em cores)

Luz: Agora me bate uma luz de como estou inserido no mundo... primeiro me vem a sensação de coisas claramente boas e diferentes, um cara sorridente, arrumado, responsável, pai de família. Vejo que é fácil ser assim. Abandonar barreiras que só deixo que me pareçam intransponíveis quando quero ser impedido. Mas quando desejo a rompo.
O fato é que não consigo me ver v e r d a d e i r a m e n t e – dito assim, cadenciadamente pra enfatizar – feliz assim, sem buscar nada de novo...
Quiçá, esse sentimento que me levou, ou pelo menos moveu a minha curiosidade em terminar o curso de jornalismo, saber o que eles buscavam no quem, como, onde, quando, porque, pra quê... no novo. Meu coração fica feliz com cada novidade.
Eis que entra a dúvida se sou algum simpatizante espiritualista ou um materialista confesso, porque sou amante dos sentidos, e volúpia nas mãos deles.
Cada textura que toco, os dedos d’alma registra como um artesão divino em busca de matéria para existir.
Cada cheiro tem um código para decifrar num labirinto de veludo por onde percorro com a avidez e a pureza de uma criança que descobre o mundo.
Degluto cada gosto; tudo que naufraga à minha boca e sucumbe aos ataques atrozes de uma tribo de dentes que honra com o alimento sagrado a língua: a Deusa do paladar; um oráculo que através do sabor prevê se algo ou alguém é bom ou ruim.
Saboreio cada som como se pudesse estar no coração de quem canta, sinto a melodia no compasso de cada nota, e sou personagem principal, o coadjuvante, a história inteira, cada letra, e sei em que parte do coração ela toca – quando sangra é que é chato de estancar.
EXPLODO em cores. E este “irmão mais velho” dos sentidos – e não melhor por isso – é talvez o mais sedutor. É o meu sentido mais festeiro porque encontra beleza nos mínimos detalhes, e sempre se embasbaca com eles, pois desde que aprendeu a guardar uma estrela dentro dos olhos, está sempre brilhando, forçando no escuro, enxergando além. E na qualidade de janela, abre portas para outros sentidos.
O sexto é meu coração, que parece cadela num cio de atrações por todos os sentidos. Foi quem me ensinou a gostar de viver e a me sentir vivo, por mais que já tenha devotado a morte.
O sétimo sentido é o pensamento, este é o meu lado mais sério, é ele quem tem a responsabilidade de reunir todos na ante-sala craniana e dizer para o papel, somente com unanimidade de votos, tudo o que sinto.
O oitavo, o último dos meus sentidos, e por alguma curiosidade 8 é um número que me acompanha, é uma interrogação. É um respeito por algo que não sei se é real ou paradigma, pois se somos simples frutos naturais da evolução e de acasos, é natural que milagres sejam acasos casuais, e acaso simplesmente não tem necessidade de ser explicado, acaso apenas acontece, humano é que tem mania de querer achar explicação para tudo. No entanto ninguém consegue explicar os próprios sentimentos. Aliás, retifico-me, muitos, mas não sei se pelo que foi de fato passado ou pela facilidade do próximo em compreender. E milagres, ou esses acasos, – diga-se de passagem – são quase sempre tudo que tem para justificar a existência de algo maior que a própria natureza, quando talvez seja só uma necessidade em ter uma interrogação no coração...
Aí a luz se volta, ganha cheiro de mato, e luz de 8 de uma linda manhã nublada, onde tudo se reflete em tudo, e fundo de panela ariada ganha brilho de cristal; um sentimento de novidade ganha o peito e vejo em essa claridade de dia tudo simplesmente se metamorfoseando num cara sorridente, largado, “cinza”... paizão. Vejo que é bom poder realizar coisas que sempre sonhei e que tinham barreiras que deixava me pareciam intransponíveis, até que entendi, que nem toda corrente é caverna, que nuvens gris, deixam o verde mais bonito, que verde é vida e sei que se as condições não forem boas, acima do céu nublado há sempre um espaço azul para quem voa com asas de papel, por mais que eu não caiba em nenhum espaço – sou pequeno demais.
E vejo rumos para o nada, mas me entrego ao infinito, porque sou 8, não tenho começo nem fim, e tenho extremos, lado maior, lado menor, por vezes iguais, é só uma questão de matemática, de crença, nem sei se acredito nesse negócio de número. O fato é que pelo ato de eu não ser nada, é que sou infinito.

George Wandega
10:49 am 19/07/2007 (em casa - Imbassaí)
* ao som de O Rappa

1º Luz: descoberta

Chega um momento da maturidade em que a gente se reconhece em todos os nossos defeitos, qualidades e características, vemos o que foi vão tentar mudar e de alguns erros até passamos a nos aceitar; parece uma evolução acima de um patamar comum de auto-conhecimento. Uma espécie de nirvana da autocrítica; mirante da existência.
Nos sentimos senhores do discernimento, diante dos percalços que estão presentes no nosso caminho, e quando olhamos para trás os que passaram nos causam interrogação... superação.
Dá um sentimento gostoso de segurança, confiança; autoconfiança, mas não auto-suficiência, e quando se olha para o mundo a fora, sentimos vírgula: a brincadeira está só começando.
E desconhecendo a coragem, apenas não sentindo medo, o peito sorri, abre uma casca e deseja se perder pelos mundos do mundo...

George Wandega

3:48 pm 17/07/2007 (em casa - Imbassaí)

Linhas verdes

Quantos anos têm
O verde que cresce em círculos
E que se vinga
Dando flores?

Quanto tempo tem
O tempo que segue em ciclos
E que se esquiva
Dos algozes?

Vítimas atrozes
Vão eras extintas;
O verde refém dos vícios
Qual a idade da vida?

George Wandega

10:08 am 16/08/2007 (no ônibus – Linha Verde)

2º Versão

(Reflexo)

E serás sempre minha
Princesa irresponsável
E pequena menina
Porque te fui primeiro amor;
Página arrancada de um conto de fadas.

Serás sempre minha
Musa da inocência
E doce mulher
Porque te fui
Desbravador dos primeiros toques

Sempre minha
Oposto e não metade
E fêmea voluptuosa
Porque te fui sexo
Em tantas vezes que me foi ex

Minha,
Já que alguém que te conhece em tantas nuanças
Simplesmente não cabe no mesmo mundo
Pois sou uma ameaça
Instinto aos teus impulsos mais sacanas.

E porque ardo
Como tua primeira
E mais profunda cicatriz
Que enfeita e alimenta sempre
Com um beijo carinhoso
E um orgulho arrependido
De que o tempo perdido
Lhe foi valioso.

E sentindo que no fundo
Um amor nunca morre,
Apenas adormece encantado.

George Wandega

Pela manhã 20/07/2007 (na beira do rio Imbassaí)

Reflexo

Te quis minha.
E hoje
Que só sabes ser minha
Não caibo dentro de seus sonhos...
Meus medos pereceram
Horizontes apareceram
Com o peito prestes a navegar
O preço do meu desejo
Era a liberdade de voar
E passei a entender
Que ninguém pode ser livre
Sem aprender a libertar...


George Wandega
10:01 am 12/07/2007 (em casa - SSA)

Manual




Para enamorar-se de um poeta
Há que se compreender a lua e as marés
A inconstância das brisas astrais
As brumas mortais
E os ventos intempestivos de uma consciência inconseqüente.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se entender que seu coração é tempo
E que ausência de sentimento no papel
Venta.

Para enamorar-se de um poeta
Há que extrapolar, riscar, correr riscos
Porque ele nasceu do submundo dos sentimentos
Que nem sempre
Cabem nas estreitas fôrmas das palavras.

Para enamorar-se de um poeta
Há que aceitar que ele é pássaro
Que ele não prende, nem gosta de gaiola
Por mais que seu coração seja grade

Para enamorar-se de um poeta
Há que resignar-se a alguns defeitos
Mudar alguns conceitos, preceitos
Mas nunca deixar de ser você
Para que seja sempre musa

Para enamorar-se de um poeta
Há que se observar
Que uma palavra têm vários ângulos
E na raiz de seus extremos
Nem sempre sabe usar as palavras certas
Quando seu coração (letra) sai da caligrafia

Para enamorar-se de um poeta
Há que se enxergar o mundo em branco e preto
E saber que as cores mudam
De acordo com os momentos
(todas elas).

Para enamorar-se de um poeta
Há que respeitar que uma palavra
Às vezes precisa de espaço para estar

Sozinha.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se abandonar o maniqueísmo
Libertar o espírito do magnetismo dos princípios
Antes que caia no abismo infinito dos extremos
- submundo dos sentimentos robóticos.

Para enamorar-se de um poeta
Há que reza
Que nem tudo que é santo é segredo
E que profanar
É negar o desejo sagrado
Da vontade de pecar
No peito
Na mente
Na cama de papel
Motel de um bar.

Para enamorar-se de um poeta
Há que honrar
Que palavra não tem sexo
Que nem todo sentimento é fundo de poço
E que existem controvérsias.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se tolerar a gramática, porque:
Quando circunspeto é reticências
Quando insatisfeito, exclamação
Quando feliz, vírgula
Quando chove, circunflexo
Enquanto vivo, interrogação.
Saber estar no limite da razão
No fim da emoção
Além da imaginação.

Para enamorar-se de um poeta
Há que se compelir com a dor
Abrir o coração para uma cicatriz feita a caneta
- e caneta não apaga com borracha -
e se preparar para a saudade.

Para enamorar-se de um poeta
Há que estar sem máscaras
E saber lidar com elas
Pois até quando mente diz a verdade
Pois nem todo mel é puro
E nem todo fel é culpa.

Para enamorar-se de um poeta
Há que saber atuar
Porque tem um espírito
Que não cabe no corpo...
...alguma coisa de asas
...água...
é fogo.

Para enamorar-se de um poeta
Há que ser materialista
Enamorar-se dos sentidos
E sinestesicamente sentir
Que nem todo toque é físico.

Para enamorar-se de um poeta
Há apenas que ser você
No limite do seus instintos
Para além de um manual.

Afinal,
Não é o imprevisível
Que torna a vida delicadamente interessante?!

* para uma estrela

George Wandega
3:33 pm 12/07/2007 (Em casa - Imbassaí)

O Castigo




E quando fez o homem
Pediu-lhe uma costela
Para tirá-lo fora da solidão;
Sorrindo cedeu.
Depois do paraíso,
Havia ao menos o prazer.

E quando fez o homem
O fez semente para povoar a terra
Disseminar seus grãos;
Nem percebeu
Depois do prazer
Não há mais perdão...

Ao invés de uma costela
Retirou o coração
Inconstante como a maré
E transformou a solidão
Num sentimento incompleto
Em forma de mulher.

George Wandega
6:07 pm 08/07/2007 (Micasa Bar - Imbassaí)